| Sunday, 29-May-2005 00:00 |
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Renasceres
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Era uma vez uma criança, que solitariamente percorria um caminho de terra batida, por entre árvores e montes. Mas comecemos por ouvir o adulto que a seguia e interceptou com uma saudação sabendo a provocação:
– Olá piolho!
– Pai!!! – Gritou a criança, correndo para trás.
– Agora deixam-te afastar de casa assim tanto sozinho? – Questionou o adulto aconchegando a criança num afago que a encobriu completamente.
– Não disse a ninguém que vinha para aqui. Pai… – E a criança libertou-se do abraço, como que para ter a certeza de quem a abraçava, como que para confirmar que aquilo estava mesmo a acontecer. – Eu não acredito! Deixa-me ir chamar a mãe… Quando ela te vir!… – E a criança fez menção de tomar o sentido inverso ao que vinha tomando.
– Não filho, a tua mãe não me pode ver. – Segurou-a pelo braço o adulto. – Além disso não temos muito tempo. Anda cá e conta-me o que tens feito. – E o adulto começou a andar, prosseguindo o caminho que a criança vinha fazendo.
– Tenho tanta coisa para te contar…– Conformou-se a criança, seguindo o adulto. – Não te vejo há tanto tempo… Pensei mesmo que nunca mais te voltava a ver.
– Shhh… – O adulto voltou a estreitar a criança contra si. – Então? O que tens feito?
– Agora ando numa escola com muitos meninos! – Anunciou entusiasmada a criança.
– Ai sim? E o que fazes nessa escola? – Sorriu o adulto.
– Faço desenhos, jogo jogos e brinco com os outros meninos. – Explicou a criança.
– E gostas dos outros meninos? – Interrogou o adulto.
– Gosto. Quer dizer… gosto mais duns do que doutros…
E a criança começou a desfiar tudo o que lhe pareceu digno da atenção do pai há tanto tempo ausente, tudo naquele tom maravilhosamente colorido pela crua e perversa inocência das crianças. O caminho encheu-se de histórias alegremente palradas pela voz do filho que eu nunca tive.
– Muito me contas!… – Observou o adulto,quando a criança se calou. – Então e continuas a vir passear para aqui, por onde nós nunca nos cansávamos de passear?
– Sim. Quando estou aqui parece que estou mais perto de ti.
– É um sítio muito bonito, não achas?
– Acho. É o sítio mais lindo do mundo. E hoje está mais bonito que nunca… porque tu estás aqui.
– Também nunca me pareceu tão bonito como hoje. – Sorriu enternecido o adulto. – Apesar de ainda não estar tal e qual era antes. Lembras-te do ano do fogo? – A criança acenou afirmativamente. – O fogo veio e levou-nos o verde da paisagem. Repara como a natureza se regenera. Ainda não há muito tempo o fogo galopou por estes vales fora, destruindo tudo o que encontrava pelo caminho. O monstro devora, mas nunca consegue dar a estocada final. O segredo é saber olhar e aprender tudo o que abarca esse olhar. Assim, o fogo mascarrou tudo de negro, mas ao mesmo tempo semeou as cinzas do que antes fora a vida, espalhando-as por esse mundo fora, segundo os caprichos do vento. Das cinzas não emerge apenas a desolação, fermenta também o renascimento. Das sombras vem a luz. Botões em flor voltaram a brotar dos ramos outrora enegrecidos das árvores, contendo no seu âmago a promessa de folhas e frutos, reconciliando este lugar com a vida. Os pássaros voltaram a entoar as suas serenatas de amor sobre os ramos dessas mesmas árvores. Se nos sentarmos quietinhos à sombra daquela oliveira, e prestarmos atenção, veremos todo o tipo de animaizinhos que namoram à sombra da memória de tempos mais inóspitos e infelizes… Depois dum longo Inverno, desponta sempre a primavera. Observa como a como a natureza se regenera… “Nada se perde, tudo se transforma”, já dizia Lavoisier. É essa a história da alma das coisas… e das pessoas.
– Pai… O que é que isso quer dizer?
– Um dia vais compreender, prometo-te. Ora repara… Começa a escurecer. É hora de regressar. E tu também já devias estar em casa. A tua mãe deve estar preocupada.
– Mas… Pai?…
– Sim?…
– Alguma vez vais voltar lá desse sítio muito longe aonde a mãe diz que eu não te posso visitar?
– Não, filho, não posso…
– Mas, pai…Eu tenho saudades tuas! – E o rebento tentou reabraçar o pai, que já não estava lá.
– …mas hei-de continuar a visitar-te. Pelo menos enquanto o teu coração continuar a ter capacidade para me ouvir.
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