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Wednesday, 18-May-2005 00:00
3 horas
A hora já deve ter mudado. As horas são uma coisa perfeitamente desconcertante. O maior anseio da hora passada, parece-me a mais vil das ninharias na hora seguinte. As horas mudam e mudam a vida dos homens, mudando, de caminho, os próprios homens.

Que horas são?

Este é o grande inconveniente do exílio de todos os relógios – fico sempre sem saber qual é a hora.

Envergonho-me dos meus relógios – deixam-me ficar mal sempre que têm oportunidade. Não foi para isso que os escolhi. Escolhi-os para me servirem de intérpretes no decifrar dessa língua cósmica que é o tempo. Contratei-os (reparem bem: contratei-os, não os comprei) para serem os meus intermediários junto dessa engrenagem maior que é todo o universo.

É por isso que deixei de os usar. Tenho uma infindável colecção de relógios, todos fechados numa gaveta da minha mesinha de cabeceira.

Mas para quê preocupar-me com as horas?

As horas são civilizações em guerra, que começam e acabam perfeitamente sincronizadas com os acasos e coincidências nos quais muitos teimam em ver o destino.

Para quê falar duma hora, quando um mero segundo basta para mudar irreversivelmente o resto da minha vida?

As potencialidades de um segundo são infinitas. Posso fazer praticamente tudo de um segundo… ou um segundo pode fazer de mim praticamente tudo o que quiser. Um segundo pode ser a diferença entre a glória e o fracasso, um segundo pode ser tudo o que separa a virtude do pecado, a última fronteira entre a sanidade e a loucura.

Os segundos são os soldados do tempo, marchando (um, dois, três, esquerdo, direito, um, dois, três, esquerdo, direito) contra os fatais canhões da engrenagem sem fim.

Basta um segundo para deitar a perder toda a vida de um homem. Sessenta movimentos do ponteiro chegam para fechar um minuto, mas sessenta mil vidas podem ser condenadas sem remissão dentro de um único segundo.

Os minutos são os abutres do tempo – limpam os ossos às decisões passadas, expondo-as ao julgamento dos dias, semanas, meses, anos, décadas – sem regresso, apesar de ainda virem longínquas.

Sessenta vezes bate o relógio, e eu à espera … Este jogo está viciado. Ninguém pode jogar eternamente contra si próprio. Mais tarde ou mais cedo um de mim terá de vencer.

O passado torna-se no meu futuro. O presente corre atrás de mim… mas leva-me uma volta de avanço.

Manhã, tarde, anoitecer.

E a noite arde-me indulgentemente na alma… o farol crepuscular que encerra a promessa de ainda novos e terríveis naufrágios. S.O.S. S.O.S.

Este é o caminho? Ninguém me responde. Na verdade o tempo não tem voz – o tempo fala, mas não tem voz. Mas os locutores de rádio têm voz. Ouço-a do carro que, descuidadamente, deixei a trabalhar. E declaram um cessar-fogo unilateral aos meus vãos pensamentos:

– São três horas da tarde em Portugal continental.

3 horas, 3 dias, 3 homens. Quantas vidas pelo meio?

© Pidgin Technologies Ltd. 2008.