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Saturday, 30-Apr-2005 00:00
Aconteceu
Fim de semana no meio do nada. A herdade ficava distante de tudo e de todos. Os telemóveis não tinham rede, a electricidade era possível apenas graças à energia solar. O sossego era tanto que o ritmo biológico parecia acompanhar em sintonia perfeita o ritmo da natureza… tal como devia ser sempre. Esperei que todos se deitassem para tirar algumas fotos nocturnas. A noite já ia longa, mas descobria-me surpreendentemente fresco e inspirado.

Experimentei diversos enquadramentos e perspectivas, sempre com o cuidado de não me afastar muito da casa. Afinal encontrava-me em terra estranha e, apesar da lua cheia que enchia o mundo duma fosforescência azul, não seria preciso muito para me perder nalgum carreiro ou caminho mais desviado.

Enquanto aguardava que a máquina fotográfica fizesse da noite dia, sentei-me no chão, e deixei-me invadir pela paz e serenidade envolventes.

Fechei os olhos.

Sentia-me longe de tudo, sentia-me até longe de mim próprio – a minha vida pareceu-me subitamente uma coisa insolitamente estranha e vagamente distante, à qual não me apetecia regressar. À minha volta sentia apenas o chilrear dos pássaros e outros ruídos mal definidos. Esvaziara-me de mim mesmo, e sentia-me bem. Deixei que a noite entrasse por mim adentro. Isolei o canto de cada um dos pássaros. A minha mente viajou por todos os ramos das árvores em volta, localizando-os um a um, como o mais perfeito e infalível dos radares. Não posso dizer de que espécie eram, não sei quais as suas cores ou de que tamanho eram os seus bicos, mas sabia exactamente onde estava cada um deles. E então voltei-me para um misterioso murmúrio quase inaudível… Há muito que o tinha detectado, embora não o conseguisse identificar. O que poderia ser aquilo? Não era o crepitar da fogueira à frente da casa. Essa estava demasiado longe… Seria um animal a rastejar? Não, o som era demasiado contínuo e sem grandes flutuações. Parecia… Ah! Exactamente, era um fiozinho de água a correr não muito longe dali. Devia ser um qualquer ribeiro ou regato não muito afastado dali. Agora eu sabia onde se situava tudo em meu redor… Fazia parte daquela paz e serenidade primordiais. Era livre e feliz como nunca imaginara que se poderia ser. A minha vida parecia ter ficado irremediavelmente para trás… por um instante acreditei que jamais poderia regressar… Algures por essa altura, acho eu, cheguei a ti… embrulhada nos lençóis, jazendo sobre a cama, dentro do quarto mal iluminado pela claridade da lua e da fogueira que espreitava pela janela entreaberta… e compreendi que tinha de voltar.

E foi então que abri os olhos.

© Pidgin Technologies Ltd. 2008.